Obra da Lucas – Tema 17 – A Gratidão Demostra o Perdão

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Obra da Lucas – Tema 17 – A Gratidão Demostra o Perdão

O episódio de 7,18-23 é uma espécie de revisão da atividade de Jesus, demonstrando que, através dela, a libertação da era messiânica chegou. A continuação traz uma revisão das reações do povo a essa realidade. Quando João pregava e batizava (3,1-20), o povo o procurou. Mas o que procurava nele? (7,24-30). E as autoridades, por que não o aceitaram? O que essas autoridades pretendem, recusando João e a Jesus? (7,31-35). A grande acusação que elas fazem é que Jesus é “amigo dos pescadores” (7,34). De fato, os pescadores e perdidos são os preferidos de Jesus. Mas, porque? (7,36-50).

O que vocês foram procurar? (7,24-30)

Encerrada a resposta a João, vem agora um questionamento geral, dirigido a todos: o que é que as pessoas foram procurar, quando se dirigiram ao deserto a beira do Jordão? As perguntas dos versículos 24 e 25 são irônicas, mostrando que os ricos e poderosos, que para sustentarem sua riqueza e poder vivem prometendo salvação para o povo, não se encontram nesses lugares, mas nos palácios, mimados por todo tipo de regalia e conforto. O povo sofrido, contudo, sabe muito bem que deles só se pode esperar o pior.
O povo quer esperança, e é o profeta que mostra o caminho da esperança. E João é ainda maior que um profeta, pois nele se realiza a palavra de Malaquias 3,1: “Eis que eu envio o meu mensageiro a tua frente: ele vai preparar teu caminho diante de ti” (7,27). Mas assim mesmo, João pertence ao Antigo Testamento, tempo de aspirações, esperanças e promessas. Agora é tempo de Jesus, em que as promessas são cumpridas e as aspirações realizadas. O versículo 28 não quer fazer comparações de valor, mas apenas dizer que os que pertencem ao Reino inaugurado por Jesus são mais privilegiados do que João. E, poderíamos acrescentar, todo cristão que conhece a Jesus tem a mesma missão que João realizou: apontar Jesus para aqueles que ainda não o conhecem (Ler João 1,26-35).
Os versículos 29 e 30 talvez pertençam a fala de Jesus. São um balanço sobre a atividade de João, preparando o que vai ser dito em 7,35. O povo desprezado (ver João 7,49) e os considerados “pescadores públicos” aceitaram o caminho apontado por João. Mas as autoridades religiosas o rejeitaram, incluindo-se na pior das condenações: “Tornaram inútil para si mesmas o projeto de Deus”.

O que vocês querem? (7,31-35)

O texto é uma severa critica as autoridades religiosas – os doutores da Lei e os fariseus. A parábola das crianças que brincam de festa de casamento (flauta e dança) e de velório (música triste e choro) mostra que essas autoridades buscam desculpa para tudo, recusando-se segundo momento, a fazer qualquer coisa. Vendo a vida severa que João levava, diziam que ele era um endemoninhado; hoje diriam que era louco. Vendo o compadecimento de Jesus, dizem que ele é um boa-vida, “amigo dos cobradores de impostos e dos pescadores”, justamente aqueles que aceitaram o convite de João e se encontraram com Jesus.
Essas autoridades religiosas julgam ter “Deus na barriga”, e estão dispostas a “encontrar pêlo em ovo” em tudo o que poderia ameaça-las e delas exigir mudanças. No fim, elas acabam sendo criticadas com burras e idiotas, pois os “filhos da sabedoria” do versículo 35 são exatamente aqueles que elas desprezam. Ou seja, o povo comum e desprezado e os maiores pecadores foram inteligentes, aceitando a conversão anunciada por João e o compromisso com Jesus. Ser sábio é escolher o caminho da vida. O idiota, porém, fecha os olhos e tapa os ouvidos, acabando por destruir a si mesmo.

A gratidão demonstra o perdão (7,36-50)

Agora temos o ápice dos episódios anteriores: o encontro de um fariseu com uma pecadora diante de Jesus. É a passagem exclusiva de Lucas, e com ela o evangelista ilustra o que disse em 7,34.
O fariseu, segundo o costume, convidou Jesus para jantar, mas esqueceu os pretensiosamente deixou de lado os gestos orientais de respeito e boas-vindas (7,44-46). Jesus está reclinado na mesa, tendo deixado as sandálias à porta. A mulher era certamente uma prostituta bem conhecida. O jantar tinha um caráter social, e os curiosos costumavam entrar no recinto para ouvir a conversa. A mulher entra e começa a fazer gestos inusitados; lava os pés de Jesus com as lágrimas, enxuga-os com os cabelos, beija-os e os unge com perfume…
O fariseu faz o julgamento, pensando que Jesus fosse um profeta saberia quem era aquela mulher, e não permitiria o seu gesto. Por que? Porque o contato com uma prostituta deixava a pessoa impura, ou seja, afastada de Deus. Tal era o procedimento prescrito pelos escribas e seguidos pelos fariseus: exorcizar o mal e ficar longe dele, isto é, o que está perdido está perdido mesmo.
Jesus percebe o que Simeão pensa e propõe uma parábola – armadilha com sentido obvio: o devedor que deve mais e é perdoado sempre mostra maior gratidão (7,41-42). Com isso Jesus introduz o contraste entre a atitude do fariseu e a da pecadora. O fariseu se julga justo e é arrogante a ponto de infringir as regras da boa educação. Ela, porém, transborda em sinais de gratidão, provando que os seus pecados haviam sido perdoados. E aqui chegamos ao cerne da questão: quem foi perdoado pouco demonstra pouca gratidão; quem foi perdoado muito, demonstra muita gratidão. Ou seja, a gratidão é proporcional ao perdão que se recebeu. E fica em aberto outra questão: quem é o que não precisa ser perdoados de muitos pecados, simplesmente por viver numa sociedade hipócrita e injusta, que impede as pessoas de serem elas mesmas? Comprometido com essa sociedade, o fariseu não julga necessitado de perdão, e nem de mostras gratidão.       A mulher pecadora, marginalizada pela própria sociedade, compromete-se com Jesus e o seu projeto, é libertada, e demonstra a sua gratidão.  Fica assim ilustrado o que já se dizia em 7,30: “apesar do seu passado, esta mulher está mais perto de Deus do que as autoridades, porque ela demonstra a gratidão, sinal da sua conversão”.
Os versículos finais (7,48-50) certamente acrescentados a cena por causado tema do perdão. A passagem da gratidão-amor para o tema da fé é uma interpretação.
O difícil para muitos de nós é aceitar que o público que acolhe Jesus é, em geral, o que os pretensos justos julgam como “perdido irrecuperável”. De fato, para a sociedade injusta que o produziu, ele é irrecuperável mesmo. Mas, para a sociedade que nasce da justiça e da misericórdia, ele é o povo preferido de Deus, que o liberta para uma nova vida, esperança de uma nova sociedade e uma nova historia. Os caminhos de Deus desafiam os nossos melhores caminhos, que, em geral, acabam por se revelar descaminhos.

Curso Bíblico – Paróquia de Santa Cruz

Segunda-Feira 20:00hs.