Obra de Lucas – tema 14 – O Anúncio da Grande Libertação

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Obra de Lucas – tema 14 – O Anúncio da Grande Libertação

Os pobres são abençoados porque Deus os escolheu como os agentes construtores de uma nova sociedade e uma nova história. Como diz Lucas, eles constituem o núcleo profético que denuncia uma sociedade injusta, e é através do clamor deles que a sociedade se desvela e entra em julgamento, abrindo as portas para o Reino de Deus. Este Reino se caracteriza pelas relações de gratuidade, que superam o espírito de comércio, e tem misericórdia de Deus como modelo e fundamento último. Por isso, os pobres aprendem também que só Deus pode julgar (6,37-42), e que cada pessoa é conhecida através de seus atos (6, 43-45). Mas não basta conhecer a palavra de Jesus; é preciso coloca-la em prática (6,46-49).

Só Deus pode julgar (6,37-42)

Parte importante nos relacionamentos entre pessoas é o julgamento que um faz do outro. Positivo ou negativo, benéfico ou maléfico, o julgamento é sempre um preconceito dentro do qual encaixamos os dentro do qual encaixamos os outros, promovendo-os ou anulando-as. Mas o evangelho proíbe totalmente o julgamento : “Não julguem, e vocês não serão julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados. Deem, e será dado a vocês….Porque a mesma medida que vocês usarem para os outros, será usada para vocês” (6,37-38).
Sabedoria antiga, esta. Ela simplesmente traduz o que a psicologia moderna descobriu como fenômeno de projeção: nós só vemos nos outros aquilo que nós mesmo somos. Confúcio já dizia: “o homem de bem, quando vê uma qualidade nos outros, ele a imita; quando vê um defeito nos outros, ele corrige em si próprio”.E isso faz o grave da questão. Nosso preconceito sobre os outros trai o que nós mesmos somos. E mais. Se levarmos em conta o que a voz passiva (“serão julgados…será dado…”) é uma forma de se referir a Deus, o texto quer dizer que Deus nos trata da mesma forma com que tratamos os outros, o que pode se tornar muito perigoso, conforme o caso.
E o que fazer diante disso? A parábola do cego é clara: não guiar os outros se você não é capaz de guiar a si mesmo. A parábola do cisco do olho do irmão, é preciso tirar a trave que está no próprio olho (6,39-42). Aí está. As nossa projeções sobre os outros, com todos os preconceitos que delas decorrem, são um meio precioso para nós conhecermos a nós mesmos. Basta prestar atenção ao que diz o evangelho e ao que diz Confúcio. Nossos pré-conceitos traem o que nós somos, tanto positivamente (qualidades) quanto negativamente (defeitos). Querer que os outros sejam perfeitos ou cheios de defeitos é um modo de evitar olhar para si próprio, o que pode trair um espírito infantil do bebezão que quer modificar o mundo para se sentir bem.O evangelho diz o contrário: comece por você mesmo, e o mundo já será bem melhor.

Os atos revelam o íntimo (6,43-45)

Outra grande preocupação das pessoas é sobre o modo como conhecer as pessoas. Seria grande ilusão pensar que a pergunta direta é a melhor maneira, pois o outro pode muitas vezes apenas verbalizar ilusões sobre si mesmo. O Evangelho é mais prático. Com a parábola da árvore ele apresenta a chave para ver o íntimo de qualquer pessoa. Assim como uma árvore é conhecida pelos seus frutos, também a pessoa pode ser conhecida intimamente pelos atos e palavras que normalmente realizam. Em outras palavras, é a prática concreta que revela o que a pessoa é. Quem tem consciência (=coração) justa e reta, também realiza atos e palavras justos e retos. Quem tem consciência torta e injusta também produz palavras e atos injustos.
Notemos que tanto 6,37-42 como 6,43-45, estão preocupados com o discernimento cristão nos relacionamentos . O texto 6,37-42 destrói o julgamento e o preconceito em relação aos outros, mostrando que é preciso em primeiro lugar conhecer a si próprio. Enquanto isso, o texto de 6, 43-45 dá a chave para verdadeiramente conhecer o íntimo e as intenções do outro. Unindo com o que foi dito sobre a gratuidade nas relações em 6, 27-36, temos um quadro geral para nortear todas as relações, sejam elas com os próximos (“irmãos”), seja com os distantes (“inimigos”). Dessa forma, o evangelho é uma fonte de renovação de todos os relacionamentos, mostrando como a justiça vivida concretamente pelos pobres torna-se fonte de renovação social.
Ficaria a pergunta: quando é que a sociedade vai descobrir isso? Essa é uma pergunta de quem não quer partir para a prática. A questão é:quando nós, por poucos que sejamos, vamos começar a colocar isso em prática?

Passar para a prática (6,46-49)

“Por que vocês me chamam: ‘Senhor! Senhor!’, e não fazem o que eu digo?”(6,46).
Jesus critica duramente uma concepção infantil de religião, onde as pessoas ficam esperando que Deus tudo o que elas querem ou precisam. Ora, se olharmos bem, deus já fez tudo. Ele criou o homem com toda a capacidade para resolver os seus problemas. A questão é saber se as pessoas querem ou não sair do espírito infantil do bebezão que chora no berço para que lhe tragam mamadeira.
Não basta saber o que Jesus diz. É preciso colocar em prática o que ele diz, para que a realidade seja concretamente transformada. A parábola dos dois construtores é simples e clara: o primeiro construiu uma casa com alicerce sobre a pedra; o outro construiu a sua diretamente sobre a terra.Veio a enchente e a primeira casa resistiu, mas a segunda veio abaixo. É o que acontece com as pessoas que ouvem o evangelho. Aquelas que o colocam em prática ficam preparadas para o que der e vier. Aquelas que ficam apenas no ouvir não conseguem resistir a nada; na situação difícil perdem completamente o pé.
Esse final do sermão apela para o bom-senso. O evangelho, no fundo, é a palavra que revela o caminho da vida, pela qual tanto ansiamos. Inteligentes seremos nós se o colocarmos em prática. Porém, se ficarmos apenas no conhecimento e sem fazer nada, isso será pura idiotice, da qual nem Jesus e nem Deus têm culpa, nem serão responsáveis pelas conseqüências dela.

Para refletir
1. Nossos preconceitos, bons ou maus, sempre traem o que nós mesmos somos?
2. Qual é a melhor forma de conhecer os outros?
3. Por que o evangelho se preocupa tanto com as relações entre as pessoas?
4. Levamos o evangelho para a prática, ou ficamos só escutamos?
5. A religião que vivemos é infantil ou adulta?

Curso Bíblico – Paróquia de Santa Cruz.

Segunda-Feira 20:00hs