Obra de Lucas – Tema 16 – Jesus é Visita de Deus

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Obra de Lucas – Tema 16 – Jesus é Visita de Deus

A multidão que ouvia o “Sermão da Planície” buscava a palavra de Jesus que provoca a libertação concreta para uma nova situação de vida, contando que as pessoas encarnem essa palavra na prática. É o grande anúncio de Jesus , respondendo à longa espera dos pobres do seu povo. Contudo, a palavra de Jesus não fica restrita aos limites religiosos e geográficos da Palestina. É uma palavra que vai também para os pagãos, levando a libertação (7,1-10). Mas até onde vai essa libertação? Até o ponto de fazer voltar à vida o povo que se encontra morto (7,11-17). Dessa forma, Jesus e a palavra que dá vida se tornam o grande sinal de que a era messiânica chegou (7,18-23).

A fé não tem Fronteiras (7,1-10)

O episódio está intimamente ligado com o sermão precedente (7,1), porque Lucas quer salientar que a palavra de Jesus vai atingir também os pagãos. O oficial romano, certamente um pagão, pode ser tanto um oficial do rei Herodes Antipas, como também um centurião romano a serviço na cidade de Cafarnaum. Note-se que Lucas frisa a relação igualitária entre pagãos e empregado (“estimava muito”), a ponto de o patrão pagão recorrer à religião do empregado, que certamente era um judeu.
Não há um encontro entre o oficial e Jesus. Lucas reserva o encontro do evangelho com o mundo pagão para o livro dos Atos. Em vez disso, temos duas embaixadas : a dos anciãos judeus e a dos amigos do centurião. Os anciãos frisam os méritos do oficial, caracterizando-o como simpatizante do judaísmo, “um temente s Deus”como o centurião Cornélio (ver Atos 10,1-2). Isso mostra que as pessoas nem sempre estão comprometidas com aquilo que representam, às vezes apenas para sobreviver.havia todas as razões para considerar o oficial como inimigo do povo: Jesus está ilustrando o que havia dito em 6,27-36. Além disso, o oficial respeita profundamente os costumes judaicos, pois sabe que um judeu ficaria impuro se entrasse na casa de um pagão (ver Atos 10,28;11,3). Isso tudo prepara o foco da atenção para a palavra de Jesus, que tem o pode ser de curar. Ela é como uma ordem que um oficial dá para os seus soldados, realizando aquilo que ela ordena e significa, isto é, a libertação para a saúde e a vida.
O auge do episódio vem do versículo 9 : “Eu declaro a vocês que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. É um prognóstico favorável à missão cristã entre os pagãos.Mas é também um ponto muito sério para a revisão da comunidade: o evangelho muitas vezes pode encontrar mais eco naqueles que estão fora da comunidade do que naqueles que estão dentro e que afirmam estar comprometidos com a palavra e a ação de Jesus. O texto faz pensar em todos os cristãos anônimos que, embora não conheçam a Jesus, internamente e externamente o seguem na prática da justiça, quem sabe até fazendo mais do que os cristãos explícitos.

Deus veio visitar o seu povo (7,11-17)

Podemos imaginar a cena: Jesus, os discípulos e a multidão se aproximam da porta da cidade de Naim, e se encontram com um grupo que vai enterrar um defunto. A descrição da gravidade da situação é rápida : “era filho único, e sua mãe era viúva” (7,12). Ao ver isso, Jesus fica movido de compaixão. É a única vez que este evangelho atribui tal emoção a Jesus. Tanto em hebraico como em grego a palavra expressa um movimento das entranhas da pessoa, indicando a forte emoção. O nosso termo “compaixão” indica, por sua vez, solidariedade: sofrer junto com o outro. Jesus entra no sentimento íntimo daquela mãe que perdeu tudo o que lhe restava.
Novamente temos a palavra soberana que traz a vida. Primeiro Jesus impede o choro que expressa a dor. Algo vai acontecer. Depois ele toca a esteira (não um caixão como os nossos) onde levavam o defunto, e ordena: “Jovem eu lhe ordeno, levanta-se!”(7,14). E a vida volta, graças à palavra-ordem de Jesus.
O significado do episódio ecoa na reação e nas palavras da multidão. O medo é a reação típica diante de uma grande intervenção de Deu, e logo é seguido pelo o louvor: “Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus veio visitar o seu povo”(7,16). É um dos pontos altos de toda a atividade de Jesus na Galiléia. Como resultado dela, o povo chega a ver nele “ um grande profeta”, isto é, um enviado que “traz a visita de Deus”, ou seja, a ação do deus que liberta para a vida. Essa identificação de Jesus faz pensar que também ressuscitaram mortos (ver 1 Reis 17,17-24; 2Reis 4,18-37). A ação de Jesus, por sua vez, realiza o que fora anunciado em 1,68.78: Deus visita seu povo através de Jesus, dando-lhe liberdade e vida.

A era messiânica chegou (7,18-23)

Lucas sempre salienta que a fama de Jesus se espalha por todos os lugares (7,17). Dessa forma, João Batista fica sabendo de tudo o que Jesus diz e faz, e certamente se pergunta sobre o desenrolar das coisas. Afinal, ele havia anunciado a vinda do Messias como um juiz terrível que trairia implacavelmente o julgamento ( ver 3,9.16-17). Mas Jesus parece estar fazendo outra coisa. E João manda lhe perguntar: “ És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (7,19).
Jesus não dá uma resposta em palavras, mas manda contar a João que se pode ver e ouvir: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres” (7,22). Ora, todas essas coisas eram anunciadas pelos os profetas como características da era messiânica (ver Isaías 26,19;29,18-19;35,5-6;61,1). Em outras palavras , o que Jesus diz e faz é prova concreta de que a libertação da era messiânica já chegou.
Teria João se enganado, anunciando Jesus como juiz? Não. Como o próprio evangelho vai mostrando, a palavra e a ação de Jesus são ao mesmo tempo denúncia e anúncio. Denunciam a sociedade e a história que massacram o povo, e anunciam uma sociedade e histórias novas, em que o povo será liberto para tornar o agente de um mundo novo, centrado na vida. É a partir dos fracos e pobres que nasce a esperança de uma nova realidade para todos. Isso testemunha o triunfo da justiça de Deus, respondendo à luta dos pobres pela justiça. Esse é o sinal do grande julgamento.

Curso Bíblico – Paróquia de Santa Cruz

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