Obra de Lucas – tema 24 – O Catecismo da Oração

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Obra de Lucas – tema 24 – O Catecismo da Oração

O texto é um verdadeiro catecismo da oração. Naquele tempo os mestres costumavam ensinar os discípulos rezar e, na oração que transmitia, lhes entregavam o resumo e o espírito dos seus ensinamentos. É bom lembrar que Lucas se dirige a pagãos convertidos, que precisam aprender e ser encorajados a rezar. O texto pode ser dividido em três partes: a oração cristã (11,1-4), a perseverança na oração (11,5-8) e a oração com a confiança(11,9-13).

A oração cristã (11,1-4)
Se compararmos o texto de Lucas é bem mais curto e, na opinião dos estudiosos, reflete mais as próprias palavras de Jesus. A versão de Mateus é mais ampliada, provavelmente devido ao uso na liturgia. Também a ocasião do ensino, segundo Lucas, parece ser a mais próxima da história.
O fato de um discípulo pedir que Jesus ensine a rezar, “como também João ensinou os discípulos dele”, reflete não só o uso da época, mas também deixa claro que a oração cristã é original, distinguindo-se da oração judaica e da dos discípulos do Batista. Temos aqui o núcleo fundamental da oração cristã, baseada no projeto de Jesus e transmitindo o espírito que deve animar toda a vida de oração da comunidade. Nela encontramos o endereço e cinco pedidos.
Endereço: “Paizinho”. Assim soa em aramaico a palavra Abbá, que é um diminutivo, o modo como as crianças se dirigem ao pai. Isso é de grande originalidade. Os judeus, de fato, concebiam Deus como o Pai do povo todo, mas não ousavam dirigir-se pessoalmente a ele com tanta intimidade. Jesus, porém, o faz (Marcos 14,36) e ensina os discípulos a endereçar a oração ao Pai nessa total intimidade e confiança. Na verdade, dizendo “Paizinho”, nós entramos na própria intimidade que existe entre Jesus e o Pai, pois Jesus fraternalmente nos fez participar da sua própria filiação.
1º pedido: “Santificado seja o teu nome”. Na Bíblia, o nome equivale à pessoa. Esse pedido é, portanto, mais um desejo: que todos os homens reconheçam a santidade do Deus verdadeiro, deixando os ídolos que produzem a escravidão e a morte para adorar o Deus Santo, que traz a liberdade e a vida. Mas, o que é a santidade de Deus? É a manifestação da sua glória, através dos atos que ele realiza no mundo e na história. O cerne dessa santidade gloriosa é a instauração da justiça, que transforma as relações entre os homens, trazendo o Reino de Deus.
2º pedido: “ Venha o teu Reino”. O Reino é o centro e o fim de todo o projeto de Deus. consiste no reconhecimento da vontade de Deus, que quer liberdade e vida para todos, e, para isso, instaura relações de fraternidade e partilha entre as pessoas, de modo que todos tenham igual acesso aos bens da vida e igual participação na construção da sociedade e dos rumos da história. mas o Reino não está só no futuro. Ele se concretiza pouco a pouco, à medida que as pessoas vivem a fraternidade e a partilha, repartindo a liberdade e a vida. O anseio pelo Reino mostra a meta da vida e da ação da comunidade, porque o Reino deve chegar para todos, até que Deus seja tudo em todos (1 Coríntios 15,28)
3º pedido: “Dá-nos a cada dia o pão de amanhã”. Não se trata apenas de pedir o necessário para a vida de cada dia, e garantir o necessário para o futuro. Mais que isso, o “pão de amanhã” é o pão da vida eterna, o alimento que realiza plenamente a vida. É o pão do banquete celeste (Mateus 8,11; Lucas 6,21). Assim, os cristãos não pedem a abundância material, que gera desigualdades, mas o necessário para uma vida digna, sempre aberta para a novidade de Deus que leva à verdadeira realização.
4º pedido: “Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos aqueles que nos devem”. Aqui os cristãos tomam a dianteira e, antes de pedir perdão a Deus, apresentam como crédito o fato de terem perdoado os outros. O pedido, portanto, tem a forma de obrigar Deus a perdoá-los também, pois, se eles são capazes disso, Deus não o seria? Isso nos faz pensar que não temos o direito de perdoar. O perdão de Deus para nós é proporcional ao perdão para os outros. Também podemos inverter: não perdoando os outros, também estamos pedindo que Deus não nos perdoe. E a questão é grave, porque nenhuma comunidade se mantém unida sem o perdão, pois viver juntos sempre traz mal-entendidos, atritos, conflitos e ofensas. Só o perdão partilhado pode garantir a continuação da vida comunitária.
5º pedido: ” Não nos deixes cair na tentação”. Não se trata dos pequenos erros e falhas, mas da grande tentação de abandonar o projeto de Jesus em troca dos projetos de satanás(abundância, riqueza, poder e prestígio; ver 4,1-13) . seria a traição final, talvez motivada pelo desânimo, talvez pelo medo e insegurança. Esta foi a última tentação enfrentada por Jesus: a de abandonar tudo para salvar a própria pele (22,39-46). É o pedido mais importante: que Deus nos poupe de trairmos seu projeto, pois assim iríamos trair a nós mesmos e a todos aqueles que lutam para que o Reino venha.

Rezar com perseverança (11,5-8)
No oriente é impensável quebrar o costume da hospitalidade; e não há padarias. Daí incomodar o vizinho para atender a um hóspede. O cerne da parábola é que o vizinho certamente atenderá ao pedido, seja por amizade, seja para continuar a ser incomodado. Inserida no contexto da oração, a parábola frisa a oração insistente e perseverante. Persevere na oração, pois se um vizinho não deixa de atender à necessidade do outro, quanto mais o “Paizinho” do céu!

Rezar com total confiança (11,9-13)
A perseverança se fundamenta na confiança, que é o tema destas sentenças. Notar que Jesus fala em seu próprio nome, assegurando a confiança dos que rezam. O uso da voz passiva e do futuro (“lhes será dado… encontrarão…abrirão…”) é para substituir o nome de Deus (“Deus lhes dará… fará encontrar… abrirá”). O importante é perceber que a iniciativa deve ser do homem. Deus não se intromete; ele só age quando o homem o procura.
É preciso rezar com confiança, pois se até os homens, que são maus, sabem dar coisas boas aos filhos, quanto mais o “Paizinho” do céu! Ele dará até o Espírito Santo, o maior dom, que faz com que as pessoas vivam segundo o projeto de Deus realizado em Jesus. De fato, é o Espírito que ensinará as pessoas a rezarem ao Pai, pedindo com perseverança e confiança aquilo que lhes é realmente necessário.
Contudo, resta acrescentar que Deus está sempre aberto a nós, esperando o nosso pedido. Perseverança e confiança não são para ele, mas para nós, que quase sempre rezamos, mas duvidando. Ora, Deus quer que tenhamos certeza na fé, convencidos plenamente da sua justiça e do seu amor.

Curso Bíblico – Paróquia de Santa Cruz

Segunda-Feira às 20:00hs