Obra de Lucas – Tema 20 – Jesus Sacia a Fome do Povo

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Obra de Lucas – Tema 20 – Jesus Sacia a Fome do Povo

Caminhando para o fim da atividade de Jesus na Galiléia, encontramos episódios importantes. O primeiro é a missão dos discípulos (9,1-6), calcada sobre a missão do próprio Jesus. A seguir temos a breve notícia da repercussão ocasionada pela atividade de Jesus, cuja fama chega até as autoridades (9,7-9). O outro aspecto importante é a assim chamada “multiplicação” dos pães, que, no fundo, apresenta o projeto de Jesus aplicado ao lado econômico da vida do povo (9,10-17). Os três episódios mostram que a palavra e a ação de Jesus têm sérias implicações na vida concreta do povo. A vinda do Reino não é algo que se justapõe ao que já existe, mas transforma tudo o que existe em nova realidade, projetando novas relações entre as pessoas e novos rumos para a história.

CONTINUADORES DE JESUS (9,1-6)

A missão confiada aos discípulos deixa claro que a missão de Jesus não é exclusiva dele, e que ninguém tem a desculpa de que “ele podia fazer porque era Deus”. O que os discípulos recebem é a mesma autoridade para anunciar o evangelho que liberta e o poder para expulsar os demônios que alienam o povo e curar as suas doenças. Os discípulos já tinham visto o que Jesus fazia; agora devem fazer o mesmo.
As instruções são importantes. Nada de muita preparação nem de acumulação de conforto ou segurança. O discípulo deve confiar em ser bem recebido e atendido em suas necessidades. Não deve ficar passando de casa em casa, criando rivalidades e correndo o risco de buscar melhores hospedagens. A casa escolhida numa cidade ou aldeia se tornará o centro da atividade – costume cristão antigo, que estabelecia o pólo da comunidade numa determinada casa (Romanos 16,5;1Coríntios16,19; Colossenses 4,15; Filemon 2). Outro ponto é não perder tempo com aqueles que não aceitam o anúncio e a prática do evangelho:sacudir a poeira dos pés” era gesto típico dos judeus quando deixavam um território pagão, sinal de que nada tinham a ver com o lugar. O resumo de versículo 6 retoma novamente a missão de Jesus, destinada a chegar a todos (4,43). São relembrados os traços fundamentais :anunciar o evangelho que liberta, e confirmar o anúncio com a ação prática (curas).

JESUS PROVOCA INQUIETAÇÃO

Estranho seria que a atividade de Jesus, realizada publicamente, não repercutisse em todos os lugares, passando de boca em boca e causando as mais diversas reações. É assim que a notícia acaba chegando até as autoridades, que procuram sempre manter o povo “em ordem e segurança”. Os rumores chegam até Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia. Mas chegam com as interpretações populares, que sempre têm algum fundamento.
O núcleo da notícia é a pergunta: Quem é Jesus? Segundo alguns, Jesus é João que ressuscitou dos mortos. De fato, Jesus começou a sua missão depois da de João. Outros dizem que ele era Elias que havia aparecido. De fato, esperava-se a volta de Elias, o profeta que prepararia a grande intervenção de Deus (Malaquias 3,1). Outros ainda diziam que Jesus era dos antigos profetas que teria ressuscitado. Com efeito, Jesus trouxe a era messiânica que os profetas anunciava,.
Mas quem é Jesus? Herodes não acredita na ressurreição: “ Eu mandei degolar João”. Como toda autoridade, cortando-lhe a cabeça. Mas a coisa continua. Como assim ? Deseja então conhecer a Jesus para atisfazer sua curiosidade, o que acontecerá em 23,8, embora com grande frustração.
A presença e a ação de Jesus não passam despercebidas: agitam o povo, incomodam as autoridades e levantam perguntas. O mesmo acontece com aqueles que o seguem : também estes provocarão reações e transformações. Ninguém fica indiferente ao evangelho que liberta as pessoas e transforma a realidade, pois todos são atingidos de um ou de outro modo – uns para serem julgados como opressores e exploradores, outros para serem libertos da opressão e exploração praticadas pelos primeiros.

JESUS SACIA A FOME DO POVO (9,10-17)
Os discípulos voltam da missão e aqui encontramos a diástole e a sístole da ação evangelizadora: ir para anunciar e voltar para rever. Mas nem sempre há tempo, dada a urgente necessidade que o povo tem de Jesus. Este continua a anunciar o Reino e a curar – a teoria( palavra ) e a prática (ação) do Reino. Toda a cena , porém, foi montada em função do que vai acontecer.

O dia vai chegando ao fim e os discípulos se preocupam com a situação do povo: alojar-se e comer, isto é, atender às necessidades básicas. A resposta de Jesus é quase cômica : “Vocês é que têm de lhes dar de comer”(9,13). Em outras palavras, o evangelho é anúncio, cura, e também alimento material. Os discípulos retrucam, mostrando o pouco que têm: 5 pães e 2 peixes para 5000 homens ( com mulheres e crianças, certamente. ). Qual a solução? Comprar? E aqui temos o problema: Onde arranjar dinheiro para a comida de tanta gente? Jesus tem outro meio. O seu projeto é organizar o povo ( sentar –se em grupos) e repartir o pouco que se tem, de forma organizada ( Jesus reparte e os discípulos distribuem). Resultado: todos comem , ficam satisfeitos, e a sobra daria para alimentar todo o povo de Deus (12 cestos = 12 tribos de Israel).
O que está em jogo é uma aplicação do evangelho ao mundo da economia. Isto é, superar a relação de comércio (compra e venda) por uma relação de partilha(repartir e distribuir). Quando cada um reparte o pouco que tem, todos ficam satisfeitos e saciados, e ainda sobra muito. o contrário da acumulação, onde poucos têm tudo, e a maioria fica sem nada. Com isso, indiretamente o evangelho sugere o contrário da acumulação, que gera a riqueza ao lado da pobreza. A partilha igualitária seria a nova relação econômica dentro do povo de Deus. Mas, para isso, é preciso organizar o povo , isto é, reeducar radicalmente a mentalidade, para que o povo perceba que é somente através de uma partilha justa que as necessidades de todos serão atendidas.
A cena dos pães se perenizou na Eucaristia cristã, como gesto que relembra o dom de Deus repartindo entre todos, para que todos tenham vida. Por essa razão a Eucaristia é sempre uma denúncia e um anuncio. Denuncia dos projetos econômicos baseados na acumulação, que gera a fome e a miséria, e anúncio do dom partilhado, único meio de todos terem acesso aos bens que Deus destinou a todos. Eucaristia é, portanto, julgamento e salvação. Oxalá não estejamos sendo julgados e condenados quando dela participamos.

Curso Bíblico – Paróquia de Santa Cruz

Segunda-Feira às 20:00hs